
A Web3 está sendo comentada porque mexe em duas coisas que sempre deram muito dinheiro e poder na internet: distribuição (quem controla a audiência) e propriedade (quem captura o valor).
Na Web2, você constrói público dentro de plataformas (Instagram, YouTube, TikTok), mas o alcance e as regras são “alugadas”: algoritmo muda, conta cai, CPM oscila, e você perde previsibilidade. A promessa da Web3 é colocar uma camada de propriedade por baixo desses produtos: ativos, identidade e acesso controlados pelo usuário (via carteira), e não apenas pela plataforma.
Em uma frase: Web3 é a ideia de uma internet onde você não só “usa”, mas também “possui” (ativos, identidade e acesso), com regras executadas por código (smart contracts).
O que é Web3 (sem tecnês, mas sem infantilizar)
Web3 não é “um site” e nem “um app”. É um modelo de internet (e um ecossistema) que tenta resolver problemas clássicos da Web2:
- Centralização: poucas empresas concentram dados, audiência e monetização.
- Baixa portabilidade: sua identidade e seus “bens” não viajam bem entre plataformas.
- Intermediação pesada: pagamentos, acesso e propriedade dependem de terceiros.
A Web3 tenta usar blockchains como infraestrutura para registrar propriedade (tokens/NFTs), executar regras automaticamente (smart contracts) e permitir que produtos digitais tenham pagamentos e controle de acesso nativos.
Web1 vs Web2 vs Web3 (o jeito correto de entender)
Web1 — “ler”
- Sites estáticos, pouca interação.
- Produção concentrada, consumo passivo.
Web2 — “ler + escrever”
- Você cria conteúdo e interage.
- Mas a plataforma controla grande parte de dados, distribuição, monetização e governança.
Web3 — “ler + escrever + possuir”
- Você interage com apps, mas pode possuir ativos e “credenciais” fora do app (na carteira).
- Em tese, isso aumenta portabilidade e reduz dependência de plataforma.
Tradução de negócios: Web3 tenta transformar “usuário” em stakeholder (participante com algum tipo de propriedade/valor).
Como a Web3 funciona na prática (as peças do motor)
Blockchain
Um “livro-caixa” compartilhado que registra transações e estados. Serve como base de confiança.
Smart contracts
Programas que rodam na blockchain e executam regras do tipo:
- “Se pagar, libera acesso”
- “Se cumprir condição X, distribui recompensa Y”
- “Se votarem, muda parâmetro do protocolo”
Ponto crítico: smart contract é “lei por código”. Se o código tiver falha, o prejuízo pode ser real.
Carteira (wallet)
A carteira vira:
- login (assinatura criptográfica em vez de e-mail/senha)
- conta (onde ficam ativos e permissões)
- identidade (endereço público + histórico)
Trade-off: você ganha soberania, mas assume responsabilidade (chave/seed).
Tokens e NFTs
- Token fungível: unidade intercambiável (moeda/utilidade/governança).
- NFT: unidade única (pode ser arte, ingresso, membership, licença, item de jogo, certificado).
Importante: NFT não é “jpeg”; é um registro de propriedade/credencial (com ou sem mídia associada).
dApps (apps descentralizados)
Interfaces (sites/apps) que conversam com smart contracts. Na prática, muitos dApps ainda têm partes centralizadas (front-end, servidores, indexadores).
Por que a Web3 está sendo tão comentada? (motivos reais)
- Propriedade digital virou uma tese grande (não só atenção, mas posse e acesso).
- Creator economy quer reduzir dependência de plataforma (recorrência, comunidade e previsibilidade).
- Comunidade como ativo: tokens prometem alinhar incentivos (nem sempre cumprem).
- Finanças “dentro da internet”: dinheiro programável e novas infraestruturas.
- Novo stack de produto: novas startups, empregos e casos de uso.
- Hype cíclico: em alta de cripto, o assunto explode; em baixa, sobra o que presta.
- Instituições e regulação entraram no debate, tirando o tema do nicho.
Onde a Web3 realmente faz sentido (casos com pé no chão)
Membership e comunidade com acesso por carteira (token-gated)
- Você vende acesso (conteúdo, comunidade, benefícios) e o “passe” fica na carteira.
- Prós: controle de acesso fora de plataforma, potencial portabilidade.
- Contras: UX e suporte mais complexos.
Ingressos e eventos (ticketing)
- NFT como ingresso verificável.
- Pode reduzir fraude e habilitar benefícios (perks) automáticos.
Certificados e “provas” (credenciais)
- Certificado verificável (curso, presença, conquista).
- Útil para reputação e validação.
Pagamentos globais
- Especialmente com stablecoins (menos volatilidade).
- Atenção: entra forte o tema fiscal e compliance.
Tokenização (ativo do mundo real)
- Representar participação, recebíveis e direitos.
- Normalmente o gargalo é jurídico/regulatório, não técnico.
O que a Web3 NÃO é (mitos e verdades)
- Mito: “Web3 vai acabar com todas as plataformas.”
Realidade: plataformas seguem, mas podem perder poder se houver portabilidade real. - Mito: “Tudo é descentralizado.”
Realidade: muitos projetos são semi-centralizados (UI, servidores, governança, chaves admin). - Mito: “NFT é só especulação.”
Realidade: houve especulação, mas credencial/propriedade tem utilidade. - Mito: “Smart contract é infalível.”
Realidade: bug pode ser fatal; auditoria e design importam.
Críticas e limitações (o que pega hoje)
- UX fraca para massa: carteira, seed phrase, taxas e aprovações são fricção.
- Segurança: phishing, drenos de carteira e permissões perigosas.
- Centralização escondida: dependência de infraestrutura e serviços de terceiros.
- Regulação e impostos: produto sério precisa lidar com enquadramento e compliance.
- Especulação contaminou o discurso: muita gente entrou por preço, não por utilidade.
O que isso significa para criadores e negócios digitais
Se você quer usar Web3 de forma inteligente, pense assim:
- Qual problema de negócio eu quero resolver? (recorrência, comunidade, antifraude, acesso, distribuição)
- Web3 é requisito ou brilho? (se login normal + pagamento tradicional resolve, talvez não valha a complexidade)
- Qual é o plano de UX e suporte? (sem onboarding bom, vira suporte infinito)
- Quais riscos eu aceito? (jurídico, reputacional, fraude)
Conclusão: por que a Web3 está sendo tão comentada
Web3 está em alta porque promete algo grande: mudar o eixo de poder da internet, saindo de plataformas centralizadas para sistemas com propriedade, regras e valor programáveis.
Mas o jogo real é: a tecnologia existe; o desafio é produto, UX, segurança e regulação. Quem resolver isso com simplicidade (e sem hype) tende a capturar valor de verdade.


